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A sem-esperança

Martha Medeiros

Não tenho mais. Já tive. Guardava no bolso de trás do meu jeans, num compartimento secreto da minha carteira, em algum lugar em que eu pudesse sacá-la rápido, num momento de desilusão. Ela era bem maior quando eu era criança, aí foi diminuindo com o passar dos anos. Mas ainda me sobrava alguma, esta que eu trazia comigo. Resquício do tempo em que eu acreditava que esperança servia para alguma coisa.

Hoje ela se foi, não sobrou nem um naquinho pra eu seguir apostando. Esperança zero. Daqui para pior, é o que penso. Ladeira abaixo, lá vamos nós. Não acredito mais em virada, em recuperação, em desenvolvimento, em milagre. E estamos em ano eleitoral, o que torna tudo mais patético. Se ao menos o Gabeira tivesse se candidatado, eu poderia cultivar alguma ilusão, lembrar de uma época em que a gente ainda possuía algum ideal, alguma fantasia. Mas o quadro que se apresenta é o quê? Uma pá de cal no nosso otimismo. Quem é que está propondo uma ideia nova, quem é que está seriamente comprometido com o futuro do país e não com o próprio ego?

Nenhum deles fala a nossa língua.

William Bonner e Fátima Bernardes falaram a nossa língua quando entrevistaram no Jornal Nacional os quatro candidatos com mais chances de se eleger. Mas não receberam respostas em português claro e preciso, e sim em outro idioma, o idioma extra-oficial do Brasil: o blablablá. Ele ainda vai entrar para o currículo escolar, não duvide. Matemática, Ciências, História, Geografia e Blablablá. Ensino básico para a criançada.

Culpa de quem? De todos nós. Da nossa falta de inteligência, de comprometimento, de projeto, de honestidade, de coragem. Ninguém pode dizer "eu, fora". Somos todos membros da mesma Família Brasil. Algumas células sadias, outras podres, mas é o mesmo corpo. Um corpo gorduroso, sujo e inerte.

Então é isso. Estamos chegando cada vez mais perto do fundo do poço. Resta-nos preservar os pequenos luxos individuais que merecem ser cultivados todos os dias, porque pode nos faltar esperança, mas ainda há muita vida para ser vivida. O jeito é sentir-se confortado por poder regar as plantas da varanda, por ver a lua nascendo no mar, por tomar uma caipirinha, por um livro bom que a gente ganhou, por uma conversa divertida com um amigo, por um filme antigo que passou na tevê, por terem lembrado do nosso aniversário, por um elogio recebido inesperadamente, pelo pão quentinho no sábado de manhã, pela única esperança possível: a de que estas miudezas não irão acabar. Porque o que era para ser grande - uma população educada, alimentada e consciente, cultura para todos, segurança, ética e saúde - não é que já tenha acabado: nem se conseguiu começar.


Domingo, 20 de agosto de 2006.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.